Crônica de: Alexandre Paredes
Quando criei este blog, eu tinha em
mente apenas postar poesias e mensagens. Mas, com o tempo, fui incrementando
outras formas de me expressar. Todas elas se complementam e têm a principal
finalidade de trazer alguma reflexão que faça bem.
Faz um tempo que eu tenho pensado
em postar aqui alguns “causos” sobre espiritualidade que eu vivi ou
testemunhei. Simplesmente porque fazem bem. Então, por que não? Vamos lá...
***
Era o ano de 1986. Eu tinha 16 anos
de idade e havia conhecido a Marlene, minha esposa hoje, há apenas alguns
meses. Nós ainda éramos somente namorados. Hoje, estamos casados há 37 anos, e neste
ano – 2026 – faremos 40 anos que nos conhecemos e começamos a namorar.
Ela era (e ainda é) médium, e eu, espírita desde
a minha primeira infância. Presenciei o fenômeno mediúnico desde que eu tinha 6
anos de idade e, logo no início das manifestações mediúnicas por meio da minha
mãe, eu entendia o que se passava, de forma cristalina. Mas isso é assunto para
outra crônica.
Naquela época, Marlene ainda apresentava mediunidade em desequilíbrio, como é natural na maioria das
pessoas cuja mediunidade está florescendo. Vez ou outra ela captava as
sensações, dores físicas ou emocionais das pessoas com quem conversava.
E era muito comum, também, ela atrair,
de forma involuntária, para o seu campo mediúnico, algum espírito que estivesse
próximo a alguém ou em algum ambiente.
Naquele fim de tarde de sábado,
estávamos caminhando em direção à casa dela. Passando por uma entrequadra,
local destinado a comércio em Brasília, nós passamos ao lado de um bar que
tinha uma reputação de ser um lugar onde havia prostituição e outra atividades
menos nobres.
Assim que passamos pelo bar, Marlene
sentiu uma dor na testa, na altura do chakra Frontal, o Terceiro Olho. Sempre
foi bem típico, no caso dela, sentir essa dor quando a “energia” do lugar não
está boa. Falamos “energia”, mas podemos dizer, na verdade, que o lugar está
com companhias espirituais não muito boas. Podem ser espíritos mal-intencionados,
sofredores, viciosos, ignorantes ou malévolos.
Mas há também a energia propriamente
dita, que são as emanações das pessoas, dos seus pensamentos e sentimentos, bem
como as emanações dos espíritos, que impregnam o ambiente. E essa “energia”, ou
fluidos, são captados pelos médiuns.
Após a dor na testa, percebi que,
quando conversava com a Marlene, eu já não estava mais conversando com ela, mas
com algum espírito com ar debochado, um riso um pouco desdenhoso e malicioso.
Então, ela olhou para mim com esse olhar meio maldoso e debochado, e disse:
– Que foi? Não está me reconhecendo
não?
Eu respondi:
– Nada. Só estou olhando para você.
O diálogo permaneceu por alguns
instantes, enquanto eu pensava no que eu poderia fazer para trazer a Marlene de
volta. O espírito ainda tentou me convencer que eu estava conversando com a
Marlene. Mas qualquer um podia perceber que se tratava de outra personalidade.
Nesse tipo de mediunidade, não há,
como se pensa comumente, uma “incorporação” do espírito. Quer dizer, o espírito
não toma o corpo do médium, não toma o seu lugar, mas exerce, momentaneamente,
um domínio sobre o médium. Como ela é médium de psicofonia inconsciente, ou
seja, nem percebe que está cedendo o aparelho fonador para o espírito, ela, de
fato, nem se lembra do ocorrido.
Passado um tempo naquela conversa,
eu resolvi usar o único recurso que sempre ajuda: a prece. Então, eu fingi que
acreditei que estava conversando com a Marlene, e não com o espírito intruso, e
pedi para ela me abraçar somente. Ela (ou ele? Não sei) aquiesceu.
Então, enquanto nos abraçávamos, eu
pedi para ela fechar os olhos. Ela sorriu, com aquele sorriso meio malicioso e
desconfiado, mas fechou os olhos. Eu fechei os meus e comecei a orar
mentalmente. Pedi a Deus e aos bons espíritos que fôssemos envolvidos no Seu
amor e que auxiliassem a Marlene a retomar a consciência e o equilíbrio.
Alguns segundos depois, ela me
olhou meio no susto, meio de supetão, e disse:
– O que você está fazendo?
Eu não ia dizer que estava fazendo
uma prece, pois ainda nem sabia se quem estava falando era a Marlene ou o
espírito. Então eu só disse:
– Nada. Por quê?
Agora, parecia que eu já estava
falando com a Marlene, pois seu olhar já era meigo e suas palavras, doces.
– Porque estou vendo algumas bolas
de luz brancas e algumas bolas de luz azul fazendo uns movimentos em forma de
espiral em torno de nós dois, iluminando tudo ao nosso redor.
– Ah – eu disse – estou apenas
fazendo uma prece.
Na época, ela ainda se dizia ateia.
Então, não quis se aprofundar muito no ocorrido. Mas ela demonstrou uma alegria
muito profunda, um estado de paz. Ficou até mais carinhosa comigo e sorridente,
um sorriso diferente, daqueles que alimentam a alma. Foi um momento muito
especial.
Eu não tinha dúvidas quanto à
eficácia da prece, nem dos seus efeitos, pois eu já tinha presenciado muitas
situações semelhantes na minha infância. Mas essa experiência me fez refletir
na simplicidade da prece.
Não precisei falar em voz alta, não
precisei fazer nenhuma prece rebuscada, nem precisei fazer nenhum show
pirotécnico. Ali, em breves palavras ditas mentalmente e com o coração sereno,
eu apenas me conectei com o Alto e a resposta foi imediata.
E o interessante é que ninguém
poderia dizer que a vidência da Marlene pudesse ter sido sugestionada, de algum
modo, por mim, pois ela realmente não sabia o que eu estava fazendo, que estava
orando. Na verdade, ela nem estava consciente de si mesma quando comecei a
orar.
Desde então, sempre quando oro, eu
me recordo dessas bolas azuis e brancas girando em torno de nós, fazendo uma
limpeza espiritual. Sei que toda oração tem valor, embora as respostas do Alto
nem sempre sejam visíveis para cada um de nós.
