terça-feira, 23 de junho de 2026

O Valor de uma Prece

Crônica de: Alexandre Paredes 




 





Quando criei este blog, eu tinha em mente apenas postar poesias e mensagens. Mas, com o tempo, fui incrementando outras formas de me expressar. Todas elas se complementam e têm a principal finalidade de trazer alguma reflexão que faça bem.

 

Faz um tempo que eu tenho pensado em postar aqui alguns “causos” sobre espiritualidade que eu vivi ou testemunhei. Simplesmente porque fazem bem. Então, por que não? Vamos lá...

 

***

 

Era o ano de 1986. Eu tinha 16 anos de idade e havia conhecido a Marlene, minha esposa hoje, há apenas alguns meses. Nós ainda éramos somente namorados. Hoje, estamos casados há 37 anos, e neste ano – 2026 – faremos 40 anos que nos conhecemos e começamos a namorar.

 

Ela era (e ainda é) médium, e eu, espírita desde a minha primeira infância. Presenciei o fenômeno mediúnico desde que eu tinha 6 anos de idade e, logo no início das manifestações mediúnicas por meio da minha mãe, eu entendia o que se passava, de forma cristalina. Mas isso é assunto para outra crônica.

 

Naquela época, Marlene ainda apresentava mediunidade em desequilíbrio, como é natural na maioria das pessoas cuja mediunidade está florescendo. Vez ou outra ela captava as sensações, dores físicas ou emocionais das pessoas com quem conversava.

 

E era muito comum, também, ela atrair, de forma involuntária, para o seu campo mediúnico, algum espírito que estivesse próximo a alguém ou em algum ambiente.

 

Naquele fim de tarde de sábado, estávamos caminhando em direção à casa dela. Passando por uma entrequadra, local destinado a comércio em Brasília, nós passamos ao lado de um bar que tinha uma reputação de ser um lugar onde havia prostituição e outra atividades menos nobres.

 

Assim que passamos pelo bar, Marlene sentiu uma dor na testa, na altura do chakra Frontal, o Terceiro Olho. Sempre foi bem típico, no caso dela, sentir essa dor quando a “energia” do lugar não está boa. Falamos “energia”, mas podemos dizer, na verdade, que o lugar está com companhias espirituais não muito boas. Podem ser espíritos mal-intencionados, sofredores, viciosos, ignorantes ou malévolos.

 

Mas há também a energia propriamente dita, que são as emanações das pessoas, dos seus pensamentos e sentimentos, bem como as emanações dos espíritos, que impregnam o ambiente. E essa “energia”, ou fluidos, são captados pelos médiuns.

 

Após a dor na testa, percebi que, quando conversava com a Marlene, eu já não estava mais conversando com ela, mas com algum espírito com ar debochado, um riso um pouco desdenhoso e malicioso. Então, ela olhou para mim com esse olhar meio maldoso e debochado, e disse:

 

– Que foi? Não está me reconhecendo não?

 

Eu respondi:

– Nada. Só estou olhando para você.

 

O diálogo permaneceu por alguns instantes, enquanto eu pensava no que eu poderia fazer para trazer a Marlene de volta. O espírito ainda tentou me convencer que eu estava conversando com a Marlene. Mas qualquer um podia perceber que se tratava de outra personalidade.

 

Nesse tipo de mediunidade, não há, como se pensa comumente, uma “incorporação” do espírito. Quer dizer, o espírito não toma o corpo do médium, não toma o seu lugar, mas exerce, momentaneamente, um domínio sobre o médium. Como ela é médium de psicofonia inconsciente, ou seja, nem percebe que está cedendo o aparelho fonador para o espírito, ela, de fato, nem se lembra do ocorrido.

 

Passado um tempo naquela conversa, eu resolvi usar o único recurso que sempre ajuda: a prece. Então, eu fingi que acreditei que estava conversando com a Marlene, e não com o espírito intruso, e pedi para ela me abraçar somente. Ela (ou ele? Não sei) aquiesceu.

 

Então, enquanto nos abraçávamos, eu pedi para ela fechar os olhos. Ela sorriu, com aquele sorriso meio malicioso e desconfiado, mas fechou os olhos. Eu fechei os meus e comecei a orar mentalmente. Pedi a Deus e aos bons espíritos que fôssemos envolvidos no Seu amor e que auxiliassem a Marlene a retomar a consciência e o equilíbrio.

 

Alguns segundos depois, ela me olhou meio no susto, meio de supetão, e disse:

 

– O que você está fazendo?

 

Eu não ia dizer que estava fazendo uma prece, pois ainda nem sabia se quem estava falando era a Marlene ou o espírito. Então eu só disse:

 

– Nada. Por quê?

 

Agora, parecia que eu já estava falando com a Marlene, pois seu olhar já era meigo e suas palavras, doces.

 

– Porque estou vendo algumas bolas de luz brancas e algumas bolas de luz azul fazendo uns movimentos em forma de espiral em torno de nós dois, iluminando tudo ao nosso redor.

 

– Ah – eu disse – estou apenas fazendo uma prece.

 

Na época, ela ainda se dizia ateia. Então, não quis se aprofundar muito no ocorrido. Mas ela demonstrou uma alegria muito profunda, um estado de paz. Ficou até mais carinhosa comigo e sorridente, um sorriso diferente, daqueles que alimentam a alma. Foi um momento muito especial.

 

Eu não tinha dúvidas quanto à eficácia da prece, nem dos seus efeitos, pois eu já tinha presenciado muitas situações semelhantes na minha infância. Mas essa experiência me fez refletir na simplicidade da prece.

 

Não precisei falar em voz alta, não precisei fazer nenhuma prece rebuscada, nem precisei fazer nenhum show pirotécnico. Ali, em breves palavras ditas mentalmente e com o coração sereno, eu apenas me conectei com o Alto e a resposta foi imediata.

 

E o interessante é que ninguém poderia dizer que a vidência da Marlene pudesse ter sido sugestionada, de algum modo, por mim, pois ela realmente não sabia o que eu estava fazendo, que estava orando. Na verdade, ela nem estava consciente de si mesma quando comecei a orar.

 

Desde então, sempre quando oro, eu me recordo dessas bolas azuis e brancas girando em torno de nós, fazendo uma limpeza espiritual. Sei que toda oração tem valor, embora as respostas do Alto nem sempre sejam visíveis para cada um de nós.

 


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