segunda-feira, 6 de julho de 2026

Autodescobrimento

Poema de: Alexandre Paredes 



Minha armadura já não me veste mais

Seu puro aço somente espelha e reluz

O falso brilho que o mundo sempre traz

Mas, por dentro, me enrijece e me reduz

 

Minhas máscaras pesavam em meu rosto

Elas se pareciam com algo sobre-humano

Mas apenas disfarçavam a dor e o desgosto

E se sustentavam pela força do autoengano

 

Minha fortaleza era apenas casca dura

Que ocultava minha interna fragilidade

Cerrada, guardava minha sombra escura

Não permitindo entrar a luz da verdade

 

A ferida gritou mais alto que meu orgulho

Precisei parar um pouco e olhar para ela

Desconectar-me do externo e seu barulho

Descobrir quem sou e quem eu já não era

 

Numa viagem para dentro, sem escalas

Sem mentiras, ilusões, abri meu coração

Não levei armas nem arrumei as malas

Apenas passei a ver as coisas como são

 

Reconheci medo, comparação e trauma

E ainda os erros que escondi até de mim

Mas também tanta semente em minh’alma

De potencialidades e de uma paz sem fim

 

Lembrei quantas vezes me senti diminuído

Porque nunca me achava bom o suficiente

E assim dava ouvidos a alguém mal resolvido

Que despejava sua amargura sobre a gente

 

Visando atender às expectativas do outro

Seja ele pai, mãe, amores ou toda sociedade

Afastei-me de mim mesmo pouco a pouco

Buscando perfeição, encontrei só ansiedade

 

Perfeccionismo não me levou a ser melhor

Só me aprisionou no velho medo de errar

Me fez cego perante o valor do meu suor

Importava o resultado e o que iriam pensar

 

Passei a aceitar-me com toda a imperfeição

Pois o mais divino em mim é que sou humano

Então, acolhi-me por inteiro, luz e escuridão

Sem desalento, mas também sem passar pano

 

Entendi que não sei tudo, mas posso aprender

Percebi que, se errei, fazia parte do processo

Porque se tropecei, isso me fez amadurecer

E dei mais um passo no caminho do progresso

 

Descobri que, se não estou bem, tudo bem

Cada dia é sempre uma nova oportunidade

Para tentar algo diferente, superar, ir além

E viver com mais alegria, leveza, serenidade

 

Essa viagem interior que parecia tão penosa

Revelou-se caminho de autodescobrimento

Em vez de me perseguir, estendi mão generosa

À criança interior, que cresce a cada momento

 

E assim, desvelei uma força que não se esgota

A alegria de poder ser quem realmente sou

O que pensam a meu respeito já não importa

Pois, agora, de mim para comigo só cabe amor


terça-feira, 23 de junho de 2026

O Valor de uma Prece

Crônica de: Alexandre Paredes 




 





Quando criei este blog, eu tinha em mente apenas postar poesias e mensagens. Mas, com o tempo, fui incrementando outras formas de me expressar. Todas elas se complementam e têm a principal finalidade de trazer alguma reflexão que faça bem.

 

Faz um tempo que eu tenho pensado em postar aqui alguns “causos” sobre espiritualidade que eu vivi ou testemunhei. Simplesmente porque fazem bem. Então, por que não? Vamos lá...

 

***

 

Era o ano de 1986. Eu tinha 16 anos de idade e havia conhecido a Marlene, minha esposa hoje, há apenas alguns meses. Nós ainda éramos somente namorados. Hoje, estamos casados há 37 anos, e neste ano – 2026 – faremos 40 anos que nos conhecemos e começamos a namorar.

 

Ela era (e ainda é) médium, e eu, espírita desde a minha primeira infância. Presenciei o fenômeno mediúnico desde que eu tinha 6 anos de idade e, logo no início das manifestações mediúnicas por meio da minha mãe, eu entendia o que se passava, de forma cristalina. Mas isso é assunto para outra crônica.

 

Naquela época, Marlene ainda apresentava mediunidade em desequilíbrio, como é natural na maioria das pessoas cuja mediunidade está florescendo. Vez ou outra ela captava as sensações, dores físicas ou emocionais das pessoas com quem conversava.

 

E era muito comum, também, ela atrair, de forma involuntária, para o seu campo mediúnico, algum espírito que estivesse próximo a alguém ou em algum ambiente.

 

Naquele fim de tarde de sábado, estávamos caminhando em direção à casa dela. Passando por uma entrequadra, local destinado a comércio em Brasília, nós passamos ao lado de um bar que tinha uma reputação de ser um lugar onde havia prostituição e outra atividades menos nobres.

 

Assim que passamos pelo bar, Marlene sentiu uma dor na testa, na altura do chakra Frontal, o Terceiro Olho. Sempre foi bem típico, no caso dela, sentir essa dor quando a “energia” do lugar não está boa. Falamos “energia”, mas podemos dizer, na verdade, que o lugar está com companhias espirituais não muito boas. Podem ser espíritos mal-intencionados, sofredores, viciosos, ignorantes ou malévolos.

 

Mas há também a energia propriamente dita, que são as emanações das pessoas, dos seus pensamentos e sentimentos, bem como as emanações dos espíritos, que impregnam o ambiente. E essa “energia”, ou fluidos, são captados pelos médiuns.

 

Após a dor na testa, percebi que, quando conversava com a Marlene, eu já não estava mais conversando com ela, mas com algum espírito com ar debochado, um riso um pouco desdenhoso e malicioso. Então, ela olhou para mim com esse olhar meio maldoso e debochado, e disse:

 

– Que foi? Não está me reconhecendo não?

 

Eu respondi:

– Nada. Só estou olhando para você.

 

O diálogo permaneceu por alguns instantes, enquanto eu pensava no que eu poderia fazer para trazer a Marlene de volta. O espírito ainda tentou me convencer que eu estava conversando com a Marlene. Mas qualquer um podia perceber que se tratava de outra personalidade.

 

Nesse tipo de mediunidade, não há, como se pensa comumente, uma “incorporação” do espírito. Quer dizer, o espírito não toma o corpo do médium, não toma o seu lugar, mas exerce, momentaneamente, um domínio sobre o médium. Como ela é médium de psicofonia inconsciente, ou seja, nem percebe que está cedendo o aparelho fonador para o espírito, ela, de fato, nem se lembra do ocorrido.

 

Passado um tempo naquela conversa, eu resolvi usar o único recurso que sempre ajuda: a prece. Então, eu fingi que acreditei que estava conversando com a Marlene, e não com o espírito intruso, e pedi para ela me abraçar somente. Ela (ou ele? Não sei) aquiesceu.

 

Então, enquanto nos abraçávamos, eu pedi para ela fechar os olhos. Ela sorriu, com aquele sorriso meio malicioso e desconfiado, mas fechou os olhos. Eu fechei os meus e comecei a orar mentalmente. Pedi a Deus e aos bons espíritos que fôssemos envolvidos no Seu amor e que auxiliassem a Marlene a retomar a consciência e o equilíbrio.

 

Alguns segundos depois, ela me olhou meio no susto, meio de supetão, e disse:

 

– O que você está fazendo?

 

Eu não ia dizer que estava fazendo uma prece, pois ainda nem sabia se quem estava falando era a Marlene ou o espírito. Então eu só disse:

 

– Nada. Por quê?

 

Agora, parecia que eu já estava falando com a Marlene, pois seu olhar já era meigo e suas palavras, doces.

 

– Porque estou vendo algumas bolas de luz brancas e algumas bolas de luz azul fazendo uns movimentos em forma de espiral em torno de nós dois, iluminando tudo ao nosso redor.

 

– Ah – eu disse – estou apenas fazendo uma prece.

 

Na época, ela ainda se dizia ateia. Então, não quis se aprofundar muito no ocorrido. Mas ela demonstrou uma alegria muito profunda, um estado de paz. Ficou até mais carinhosa comigo e sorridente, um sorriso diferente, daqueles que alimentam a alma. Foi um momento muito especial.

 

Eu não tinha dúvidas quanto à eficácia da prece, nem dos seus efeitos, pois eu já tinha presenciado muitas situações semelhantes na minha infância. Mas essa experiência me fez refletir na simplicidade da prece.

 

Não precisei falar em voz alta, não precisei fazer nenhuma prece rebuscada, nem precisei fazer nenhum show pirotécnico. Ali, em breves palavras ditas mentalmente e com o coração sereno, eu apenas me conectei com o Alto e a resposta foi imediata.

 

E o interessante é que ninguém poderia dizer que a vidência da Marlene pudesse ter sido sugestionada, de algum modo, por mim, pois ela realmente não sabia o que eu estava fazendo, que estava orando. Na verdade, ela nem estava consciente de si mesma quando comecei a orar.

 

Desde então, sempre quando oro, eu me recordo dessas bolas azuis e brancas girando em torno de nós, fazendo uma limpeza espiritual. Sei que toda oração tem valor, embora as respostas do Alto nem sempre sejam visíveis para cada um de nós.

 


terça-feira, 21 de abril de 2026

Forma e Fôrma

Poema de: Alexandre Paredes 


O mal se forma entre a forma e a fôrma

Quando a mente desmente a palavra

Abobalhada no verniz da própria bolha

Criada para enganar a alma malcriada

 

Com risos ela esconde rios de lágrimas

Ocultas por trás de muitas falas cultas

Que dão de ombros e de mãos dadas

Andam com o despeito e as disputas

 

A essência nunca dá aquiescência

À figura que fulgura desfigurada

Desvirtuada da virtude e inocência

Condenada ao enfado e malfadada

 

Não tem como ser ensinada sua sina

Só moldada por escolhos e escolhas

Revelada por entre as runas e ruínas

E despistada em meio a rotas rôtas

 

Já se fora o que um dia veio de fora

Já não tem voz o que não está em vós

Ora, não mais ouvis o outro de outrora

Só o silêncio de quando estais a sós

 

O que entra pelo ouvido cai no olvido

Se não parte do coração que toma parte

De toda pureza que não toma partido

De toda arte sentida que em nós arde

 

Consciência não é estar com Ciência

Quem apenas sabe nem sempre sobe

É sentir dando sentido à existência

É viver e morar onde não se morre

 

O que está por trás é o que se traz

É o que nos leva a nos tornar leves

Despidos das faces que a gente faz

Máscaras de ferros com que te feres

 

Desnudos do aparato da aparência

Somos apenas nós sem casca de noz

Em vão muitos vão buscar reverência

Enquanto velam o mundo que passa veloz

 

A tua verdade é força, nunca força

Ela se desvela como vela no escuro

Ainda que da poça você só possa

Ver a lama ou do poço o seu fundo

 

Está tudo bem se não está tudo bem

Aceitar-se é sempre a melhor receita

Pra sair do lado do lodo e, alado, ir além

Refazer a sua história, de aura refeita

 

Sê luz, pois serás sempre ex do que és

Já não importa o que a gente importa

Serás sempre mares, apesar das marés

E de estares envolto no que não volta

 

Tendes a ser o que tendes de melhor

A vossa natureza, aquilo que sois: sóis

Vossa couraça e cor que sabeis de cor

Se desfazem atrás do que já foi atroz

 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Amor a Dois

Autor: Alexandre Paredes 








O amor se sente, simplesmente. Não pode ser imposto, não pode ser prometido, não pode ser provado. E quando a gente sente amor, ele transborda, pelo olhar, pelos gestos, pelo jeito.

 

Mas quando não há amor de fato, presentes caros e juras de amor são apenas uma tentativa de compensação de algo que está faltando. Quando alguém quer ser amado, não quer que você lhe dê o mundo, mas que apenas entregue o seu coração.

 

Ninguém deveria jurar amor eterno, pois o que a gente sente em nosso coração e o que o outro sente no seu coração não pode ser controlado, nem por mim, nem pelo outro.

 

Mas falo aqui do amor-sentimento ou amor-afinidade, e não do amor-atitude.

 

Usamos a mesma palavra para definir sentimentos ou atitudes distintas. O amor entre companheiros de vida, pressupõe um sentimento diferente; pressupõe afinidade, parceria, companheirismo, admiração, assim como a vontade de conviver no dia a dia, vontade de viver lado a lado.

 

Eu posso até prometer que irei amar uma pessoa para o resto da vida, mas não tenho como garantir que terei por essa pessoa, daqui a algumas décadas, o mesmo sentimento que tenho hoje.

 

Mas posso amar em atitudes, respeitando, querendo o bem dessa pessoa, fazendo o bem a essa pessoa. Esse amor está ao alcance de todos. Ainda que nossos sentimentos mudem, que a beleza passe, que a admiração não seja a mesma, ainda que a forma com que vemos aquela pessoa que amamos um dia não seja mais a mesma, podemos amá-la em atitudes, mesmo que isto signifique não permanecer ao lado dela para o resto da vida.

 

Apenas dizer “eu te amo” não significa que haja verdadeiro amor. Somente as ações demonstram o amor de quem diz que ama. E somente em meio às provações da vida é que se atesta que existe amor de fato.

 

É mais fácil amar alguém quando as condições são favoráveis. Mais difícil continuar amando em meio às provações da vida, em meio aos revezes, quando situação financeira não está favorável, quando a beleza já não é mais a mesma, quando aparecem os problemas de saúde ou quando o ser amado não passa por um bom momento. Mas são esses momentos que testam se há amor de verdade.

 

Na convivência do cotidiano é que vamos aprendendo a amar de fato, quando deixamos de ver o outro de forma idealizada e passamos a ver a pessoa real que convive conosco. Às vezes, quando cai a fantasia da visão idealizada que se tinha do outro, diz-se que o amor acabou. Na verdade, nesse caso, o que ocorre é que o amor que se tinha era pela pessoa idealizada, e não pela pessoa real.

 

O amor é real quando amamos aquela pessoa que está do nosso lado como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse. São muitos os casais em que uma das partes permanece ao lado do outro imaginando que poderá mudá-lo. As pessoas só mudam quando querem, quando podem, quando conseguem, e não quando nós assim o exigimos.

 

O amor é uma força natural que existe em nós. Todos nascemos para amar e com o desejo de sermos amados. Porém, a única coisa que podemos fazer é amar, cuidar dos nossos afetos como se cuida de uma sementeira, de um jardim ou de uma plantação. Precisamos adubar, regar, deixar que o sol os ilumine. Sem isso, o relacionamento se perde por desnutrição.

 

Mas também não há como garantir que cuidando, amando e nutrindo, o outro permanecerá ao nosso lado. Da mesma forma, todo o cuidado que tivermos com nossa plantação não garante a colheita, pois existem condições que não dependem de nós, como as condições do tempo, o ciclo de chuvas e de estiagem.

 

Então, só nos resta semear e cuidar, amando e aprendendo a amar, na certeza de que um coração que aprendeu a amar encontrará amor.


domingo, 21 de dezembro de 2025

Simples

Poema de: Alexandre Paredes


 






Quem não serve, não serve

Quem é só cheio de si, é só

O que a si monumentos ergue

Segue vazio ao voltar ao pó

 

Saber muito é muito pouco

Aprender é infinito

Quantos nadas sabe o douto

Sem sentir, sem sentido

 

Tantas máscaras e enganos

Escondendo o menino

Endeusados, desumanos

Ser humano, ser divino


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Pelo Amor ou Pela Dor

 Texto de: Alexandre Paredes













“Vai pelo amor ou pela dor”...

 

Você já deve ter ouvido esta sentença. Pode se referir à forma com que a pessoa se converte à determinada religião; pode ser que se refira à nossa transformação íntima, a uma mudança de patamar de consciência, à nossa melhoria como seres humanos ou a uma melhoria significativa em nossa forma de viver que nos traga mais paz ou mais felicidade.

 

Que o amor nos transforma não resta dúvidas. E também é certo que o amor bem compreendido nos impede de enveredarmos por alguns caminhos que nos levam a aflições. Mas nem sempre o amor, por si só, é capaz de evitar que soframos. Porque há aflições que simplesmente fazem parte da vida humana, as quais não dependem do que fazemos no aqui e agora, e que nenhuma ação de nossa parte poderia evitá-las.

 

Há, também, quem desperdice os ensinamentos que recebeu, a educação amorosa que obteve, e persista nos descaminhos da vida. É o livre arbítrio. E aí, não há dúvidas: vem a dor.

 

Mas a verdade é que a dor, por si só, não nos transforma. Por mais contraditório que pareça, a gente só se transforma quando se rende. Isso mesmo. Quando a gente se rende.

 

Por mais que os coachs, os oradores de autoajuda, os vendedores de sucesso, prescrevam uma força de vontade inabalável, uma determinação inquebrantável, indiquem fórmulas de sucesso baseadas em sete, dez ou doze passos, receitem aquela disciplina rigorosa para atingirmos nossos objetivos, o fato é que precisamos nos render. Mas nos render a quê? À dor que bate à nossa porta.

 

Ela é o convite para auscultarmos a vastidão do nosso mundo interior. E quando insistimos em não a escutar, a dor se dilata. A dor é somente um aviso de que algo precisa de atenção, senão vai infeccionar, vai piorar.

 

Se a gente caminha descalço numa vereda de espinhos, vai doer. E se a gente insiste em caminhar dessa forma, vai doer mais ainda, e vai infeccionar, sangrar, e piorar muito. Então, não adianta tapar os ouvidos diante do grito interior da dor que nos chama a atenção. É preciso escutá-lo, percebê-lo, entendê-lo. É preciso entender qual o recado que a dor está nos dando.

 

Você também já deve ter ouvido falar de que “aquilo que a gente cala, o corpo fala”. Nada mais verdadeiro. Mas nem sempre entendemos a linguagem daquilo que o nosso corpo está nos comunicando. Ou melhor, insistimos em não prestar atenção naquilo que ele está nos dizendo.

 

Daí vêm aqueles casos de pessoas que insistem em trabalhar muito além do que o corpo suporta, e o corpo grita; aquelas situações em que alguém carrega um mundo nas costas, suportando responsabilidades que estão além das que lhe são devidas de fato, e a coluna trava; aqueles momentos em que a raiva contida se transforma em problemas no estômago, no fígado ou alguma inflamação.

 

Não existem fórmulas universais para todos, assim como os medicamentos são muito diferentes para cada paciente, porque cada um traz consigo um roteiro de vida diferente, problemas distintos, dificuldades específicas, idiossincrasias. Receitar as mesmas fórmulas de felicidade e sucesso para todos seria o mesmo que receitar a mesma aspirina para todos os pacientes, para todos os tipos de problemas de saúde.

 

Mas se render à dor não significa desistir de lutar, entregar-se, desistir de ser feliz nem desistir da vida. Isto seria interpretar ao pé da letra e de forma injusta nossas palavras. Render-se significa que aquilo em que estamos insistindo talvez não esteja funcionando; que talvez tenhamos que mudar a direção de nossas vidas.

 

Render-se à dor, por outro lado, pode ser, para determinadas pessoas, uma necessidade de não mais se autossabotarem, romper com o padrão de desistirem ao contato com os primeiros obstáculos. Porque pode ser que, para algumas pessoas, o padrão de comportamento que gera a dor seja exatamente este: a falta de insistência, de perseverança, de força de vontade para vencer.

 

Por isso que não se pode generalizar regras, prescrever receitas fáceis para problemas complexos. Pois há pessoas em que a dor vem dizer exatamente o oposto: “pare de insistir nesse caminho”.  É como a metáfora do aguilhão, uma espécie de espeto que os pastores de ovelhas utilizavam para cutucar as ovelhas desgarradas do rebanho, aquelas que se afastavam do caminho. Quanto mais a ovelha insistir em sair do caminho, mais ela sofre o aguilhão que a espeta para retornar ao rebanho.

 

Render-se à dor é especialmente despir-se de todo orgulho, perceber-se como aprendiz da vida, e não como aquela pessoa que já tem todas as respostas. Gosto muito da metáfora da taça cheia, da sabedoria oriental, representando aquelas pessoas que, por já estarem tão cheias de conhecimentos e de falsa sabedoria, não estão dispostas a receber o líquido precioso, a água pura dos novos conhecimentos que podem ser adquiridos com as lições que a vida nos traz.

 

Como saber o recado que a vida nos dá por meio da dor? Ouvindo a voz interior da consciência. Mas não a voz que nos julga, nos condena, nos oprime; nem a voz que nos elogia, nos enaltece ou nos faz ter fantasias sobre nós mesmos. Essa ainda não é a voz da consciência.

 

Falo de uma voz que é calma, amorosa, serena. Só é possível escutá-la quando cessamos o burburinho das justificativas, dos medos, dos julgamentos, das ilusões, fantasias que usamos para fugir de nós mesmos, quando aceitamos, enfim, a dor. Ou seja, quando nos rendemos a ela, para então nos reerguermos como a pessoa que realmente somos, mais forte, mais pura, mais real. Menos idealizada, porém mais realizada. Pois olhamos de frente para a nossa verdade interior, sem o peso das máscaras que carregamos penosamente há tanto tempo.

 


sábado, 27 de setembro de 2025

Sublime Amigo

Poema de: Alexandre Paredes



 


 





Não posso prometer-te que não enfrentarás dores

Mas, quando estiveres em prantos, chorarei contigo

Não posso prometer que te carregarei aonde fores

Mas que, em cada degrau, terás em mim um amigo

 

Não posso dizer-te a direção que darás a tuas escolhas

Mas jamais te faltará a bússola, o Norte, a orientação

E do caderno da vida nunca te faltarão novas folhas

Páginas em branco a ser escrito o poema da redenção

 

Não posso dar-te a mão, pois minha essência é imaterial

Mas estou sempre ao teu lado a falar pela voz do tempo

Ofereço-te o próximo para sentires minha presença real

E pela janela da tua prece iluminar-te-ei o pensamento

 

Perceberás a minha Providência se tiveres olhos de ver

Se ouvires tua intuição e observar o socorro inesperado

Quando, de repente, sejas visitado pela alegria de viver

Sou Eu quem se aproxima de ti, e não a força do acaso

 

Não posso substituir-te nos momentos de aprendizado

Especialmente quando te parecer insuportável a lição

Ainda quando o sabor da prova se mostrar mais amargo

Mas terás sempre o remédio da fé a sustentar teu coração

 

Tudo posso, sou onipotente, mas nem tudo me convém

Porque nem tudo o que me pedes seria o melhor para ti

Às vezes, quando a dor bate tua porta, é para o teu bem

E também para lembrar-te que a verdadeira vida não é aí

 

Mas sempre te ofereço o Caminho, a Verdade e a Vida

Por meio Daquele que se fez carne para ser a minha voz

Para que do meu rebanho nenhuma ovelha seja perdida

E para lembrares que meu amor sempre estará em vós

 

Sou o Verbo, sou a Palavra, mas nem tudo está escrito

Minha vontade está grafada no imo de cada consciência

Não me procures apenas nos templos ou em algum livro

Pois falo no silêncio, no infinito e na pureza da inocência

 

Sabes que sou onipresente, estou presente em todo lugar

Inclusive dentro de ti, do teu irmão e de cada ser que vive

Então, não me procures tão longe, escuta o rio, veja o mar

Vivo em teu coração e no daquele que não amas, inclusive

 

Meu amor por ti é infinito, sou infinitamente justo e bom

Não imponho castigos, não condeno nem absolvo ninguém

Não criei seres com defeitos, nem seres com algum dom

Tudo é conquista e merecimento, na sementeira do bem

 

Tudo criei para progredir sempre, na direção da perfeição

A nenhum ser dotei de privilégios, nem de males de nascença

Criei todos simples e ignorantes, e pela lei da reencarnação

Cada ser erra e acerta, planta e colhe, e adquire experiência

 

Toda criatura do Universo carrega em si a minha centelha

A todos os seres presenteei com a chama da imortalidade

Cada morte nada mais é do que nova vida que se abeira

Mais um passo no caminho que conduz à eterna felicidade