Artigo de: Alexandre Paredes
Existem vários significados para Naturalismo, mas a
ideia que queremos abordar aqui refere-se ao modo de vida naturalista,
geralmente associado a práticas que visam a uma boa saúde.
Qual o conceito de natural? Tudo que é natural é
melhor do que o artificial ou sintético? Aquilo que, costumeiramente,
denominamos Naturalismo é bom? Sempre? E o que é, exatamente, o “Naturalismo”?
Não existe uma definição clara e única para esse termo, mas vamos tentar
responder a essas questões.
Tomemos como exemplo a água. A água que bebemos é
natural? Não. Ela é filtrada, para eliminar vermes, parasitas e bactérias. Além
disso, antes de chegar às nossas casas, a água que bebemos passa por um tratamento
em diversas etapas, que incluem o uso de elementos químicos, como cloro, ozônio
e flúor, que, apesar de eliminar micro-organismos nocivos, podem causar alguns
efeitos menores indesejáveis à nossa saúde.
Se estivermos perdidos na natureza, numa selva por
exemplo, e resolvermos beber a água “natural” que corre num determinado rio
qualquer, esta simples atitude, a depender das condições desse rio, pode nos
levar à morte, devido à contaminação por alguma bactéria ou parasita.
Então, nesse simples exemplo que faz parte da nossa
vida diária podemos perceber que nem tudo o que é natural é bom. E o uso da
inteligência pelo ser humano no trato com a natureza, com a aplicação constante
de novas tecnologias, é o que lhe permitiu prosperar como espécie.
Há quem fume maconha e acredite que ela não faz
nenhum mal, por ser uma planta, por ser “natural”. Uma distorção, certamente. A
natureza está repleta de frutos venenosos e plantas que fazem mal à saúde.
Então, mais importante do que ser o não ser natural é buscarmos aquilo que nos
faz bem, e a viver em harmonia com a Natureza e com a nossa natureza humana.
Sementes, grãos e castanhas, por exemplo, precisam
ser cozidos ou torrados, além de deixados de molho, no caso dos primeiros,
porque contêm toxinas e antinutrientes, que, entre outros problemas,
prejudicariam a absorção de vitaminas e sais minerais pelo nosso organismo caso
fossem consumidos in natura. O
cozimento de alimentos não é um processo natural, mas foi uma tecnologia que
veio junto com o domínio do fogo pelo homem ainda primitivo, o qual
possibilitou que a humanidade evoluísse.
Nossas casas e cidades não são naturais. São obra
da engenhosidade humana. As cidades bem estruturadas têm saneamento básico, que
é uma tecnologia a serviço da higiene e da prevenção de doenças, permitindo que
a população humana se multiplicasse ao longo dos séculos.
Aplicamos em nossas casas serviços de eliminação de
insetos e animais indesejados, por meio de venenos. Talvez, futuramente,
conseguiremos encontrar uma tecnologia melhor para evitar que ratos, escorpiões
e baratas infestem nossos lares. Mas, até que isso aconteça, usamos esse
processo nada natural para afastá-los.
Após alguns milênios de evolução da civilização,
conseguimos manter nossas casas protegidas de animais e feras. Porém, por mais
que as feras sejam assustadoras, o animal que mais produz doenças e mortes de
seres humanos ainda é o mosquito. Mesmo assim, a situação da humanidade atual já
é bem melhor do que a de tempos remotos, quando éramos bem mais afetados por
esses pequenos seres da natureza.
Vacinas e antibióticos não são naturais. São obra
da Ciência, do trabalho e da inteligência humanas. E salvam milhões de vidas. Antigamente,
populações inteiras eram dizimadas ou incapacitadas pela varíola, peste
bubônica, gripe espanhola, tuberculose, poliomielite, meningite, entre tantas
outras doenças.
E tem muita gente que é contra vacinas, por motivos
nada racionais. Não raro, parte dessas pessoas vai correndo à farmácia para
comprar o antibiótico, o anti-inflamatório, o analgésico, tão antinaturais
quanto as vacinas, além de se automedicarem com remédios inúteis ou que não têm
nenhum efeito contra o problema que estão enfrentando. Porque preferem
manter-se na ignorância.
Há quem busque medicamentos naturais em ervas e
chás. Muito louvável e, em diversos casos, são excelentes remédios para
restaurar a saúde e acarretam menos efeitos colaterais indesejáveis, ou nenhum.
Mas existem, também, muitos remédios fitoterápicos pouco eficazes para o
problema que a pessoa doente está enfrentando.
E quando a pessoa tem uma condição clínica grave, o
tratamento com ervas naturais acaba por fazer com que ela demore a procurar um
médico, levando ao agravamento da situação e a um tratamento tardio, tornando a
cura ou o controle do quadro mais difícil.
O grande problema de tratamentos à base de ervas e
chás não é, exatamente, o consumo dessas substâncias. Ocorre que, geralmente,
quem as utiliza ou as indica não é um profissional médico, habilitado a
diagnosticar. Sem diagnóstico, podemos estar usando, por exemplo, um chá para
“desinchar”, e, no entanto, termos um problema renal ou linfático grave, para o
qual o uso dessas substâncias poderá ser inócuo ou até prejudicial.
Sem diagnóstico, poderemos utilizar uma erva ou
determinado chá como anti-inflamatório e estarmos diante de um quadro de
trombose, que, se não for tratado adequadamente e com urgência, poderá levar a
pessoa a óbito.
Se as ervas e chás têm alguma ação química, são
medicamentos e, como tal, necessitariam de uma prescrição médica, pois quem não
é médico não é habilitado para avaliar se aquela substância trará algum
prejuízo para a saúde do paciente ou se não fará nem bem nem mal.
Porém, se a substância que a pessoa utiliza não tem
ação química, mas algum outro tipo de ação desconhecido pela Medicina
convencional, é muito proveitoso lançar mão desse tipo de terapia, como
coadjuvante, e não como terapia única nem como “alternativa” ao tratamento
consagrado pela Ciência, pois as terapias integrativas e a Medicina
convencional não devem ser vistas como concorrentes entre si, mas
complementares.
Muitas vezes, associamos o “naturalismo” a um modo
de vida que considera essencial uma alimentação natural e ao não uso de
substâncias sintetizadas, criadas artificialmente pelo homem para medicar,
aliviar sofrimentos e curar doenças. Mas, em que pese essa ênfase naquilo que
ingerimos, o “naturalismo” que se vê normalmente desconsidera que a nossa vida
é artificial.
A luz elétrica mudou completamente a dinâmica da
vida do homem moderno, e com certeza deve ter afetado também sua dinâmica
cerebral. Na vida natural, o homem primitivo trabalhava à luz do dia, enquanto
havia Sol, e dormia de noite. A partir do momento em que a luz artificial tomou
conta de nossas vidas, assim como a interação com os aparelhos eletrônicos, como
televisão, computador e celular, o nosso cérebro interpreta que não é hora de
dormir – imagino eu, leigo no assunto.
Mesmo não sendo especialista no assunto, é de se
supor que a luz artificial modificou a dinâmica do nosso sono, ou da falta dele,
mudou a dinâmica da nossa química cerebral. E não tem muito como voltar atrás.
Mal entramos no mundo e já estamos hiperconectados, trabalhamos ou estudamos em
horários noturnos, em horários que antigamente, na vida natural, estaríamos
dormindo.
Fico imaginando o quanto essa forma de vida não
natural que a luz elétrica proporcionou pode estar afetando nossa saúde mental
e a saúde como um todo, levando-nos a estados de ansiedade tão característicos
da vida moderna. Mas não temos dados científicos sobre o assunto para afirmar qualquer
coisa nesse sentido.
Com a invenção dos automóveis, motocicletas, trens
e aviões, usamos menos nossas pernas para nos locomovermos. Gastamos menos
energia. O homem antigo usava mais de suas forças físicas para o trabalho, o
que regulava melhor seu peso corporal e auxiliava a evitar o excedente de
gordura ou glicose em seu metabolismo. Junte-se a isso o fato de nossa
alimentação estar cada vez mais calórica, mais gordurosa, mais pobre de
nutrientes, e temos a obesidade como um problema global.
A vida laboral moderna, não raro, contém mais
atividades intelectuais, em que o profissional fica sentado o dia inteiro
diante de um computador, situação que agrava o problema da obesidade e todo o
quadro de comorbidades decorrentes dessa condição.
Não é preciso muito esforço para constatar que a
alimentação moderna está cada vez mais dependente dos alimentos
industrializados, ultraprocessados, com excesso de aditivos químicos, para
conservar o alimento por mais tempo nas prateleiras, para dar mais sabor ao
produto (e mais calorias, com certeza). Não bastasse isso, quando buscamos
alimentos mais “naturais”, como frutas e hortaliças, desconhecemos que aqueles
produtos foram cultivados com uma enorme quantidade de agrotóxicos, que, com
certeza, afetam nossa saúde.
Não há dúvidas de que uma alimentação mais natural,
sem agrotóxicos, sem tanto processamento, sem tantos conservantes, aditivos
químicos, adição de açúcares, é uma alimentação mais saudável. Porém, aqueles
que pregam um naturalismo baseado tão somente no que ingerimos pela alimentação
têm uma visão incompleta sobre tudo o que afeta nossa saúde.
O mesmo raciocínio se aplica à excessiva ênfase que
se dá ao que ingerimos na forma de medicamentos. Há quem evite tomar
medicamentos sintetizados em laboratório por acreditarem que eles fazem mal à
saúde, e preferem usar ervas ou terapias consideradas “naturais”. Toda
medicação química, que têm um princípio ativo, pode ter efeitos colaterais
indesejados. Mas, na maioria das ocasiões, a opção pela medicação química é
feita pesando os benefícios e os malefícios.
Quando uma pessoa sofre, por exemplo, de Diabetes,
o uso da insulina e outros medicamentos, da forma correta, é necessário e
infinitamente menos danoso do que a própria doença. Uma doença como essa pode
acarretar sérios problemas à pessoa que a adquiriu, como insuficiência renal,
amputações e até a morte. Então, não faz sentido alguém evitar tomar tais
medicações, já que elas estão disponíveis, sob pretexto de que o tratamento não
é “natural”.
As condições da nossa sociedade que favorecem as
pessoas a adquirirem Diabetes não são nada naturais. Nossa alimentação é
carregada de adição de açúcares, há muitos carboidratos disponíveis em pães,
pizzas, massas, além de muitos alimentos prontos, industrializados, carregados
de sódio, conservantes, corantes, acidulantes e excesso de calorias. Isso tudo,
aliado ao sedentarismo da vida moderna, em alguma medida, favorece a Diabetes.
Mas a Diabetes já existia em outras épocas, porque
há outros fatores, como, por exemplo, a genética, que leva alguém a ter essa
doença, ou seja, sem nenhuma relação com a alimentação moderna. A diferença é
que, no passado, as pessoas viviam com a doença sem ter muitos recursos para
sobreviver a ela. Então, a Ciência e a Medicina devem ser consideradas um
grande benefício para a humanidade.
Assim, antes que a pessoa diga “Ah, não! Terei que
tomar esta ou aquela medicação para o resto da minha vida”, deveria dizer “Graças
a Deus e graças ao labor de muitas pessoas da Ciência, tenho um medicamento que
pode aliviar meu sofrimento, melhorar minha qualidade de vida e prolongar minha
vida”.
Esse tipo de raciocínio se aplica muito também em
relação a doenças de aspecto mental ou emocional. Existe um estigma social relacionado
a essas doenças, além da ideia de que a medicação para as tratar alteraria a
essência da pessoa ou, ainda, que tomar medicação para um distúrbio psíquico
seria uma espécie de admissão de fracasso perante a vida, admissão de um tipo
de fraqueza diante dos problemas, dos obstáculos, das aflições, ou de falta de
fé, ou de falta de Deus na própria vida.
É interessante que não costumamos ter essa mesma
forma de estigma para com uma pessoa que, por exemplo, usa óculos, que precisa
usar muletas devido a uma lesão óssea ou muscular, ou que precisa usar aparelho
ortodôntico. Aliás, todos esses tratamentos não são naturais, mesmo porque não
haveria nenhuma planta ou prática tida por natural que pudesse curar ou
amenizar esses males.
Alguém que sofre de miopia não é considerada uma
pessoa fraca de caráter porque tem um problema de visão, nem damos conselhos
para ela no sentido de tentar ver a vida com “bons olhos” ou de buscar a
própria cura com a fé ou indo mais à Igreja.
Essa pessoa tem a necessidade de usar óculos,
simplesmente. Da mesma forma, não cabe recomendar a uma pessoa com Depressão
que veja a beleza da vida ou que tenha pensamentos positivos, porque se trata
de uma doença que afeta a percepção da pessoa a respeito dos acontecimentos, uma
doença que afeta justamente nossa forma de pensar e de sentir. Na miopia, o
órgão afetado é a visão, enquanto na depressão, é o cérebro, o sistema nervoso como
um todo, além da mente.
A pessoa com Depressão apresenta um distúrbio
neuroquímico, que afeta sua vitalidade, sua forma de sentir prazer, sua forma
de enxergar as situações da vida, além de afetar a digestão, a respiração e o
sono. Da mesma forma que a pessoa míope não conseguirá enxergar melhor por
simples ação de pensamentos positivos, o mesmo acontece com a pessoa deprimida.
Ela precisa de medicação, além de tratamento psicológico.
Há quem diga que medicação psiquiátrica é uma muleta
psicológica – como se a muleta fosse desnecessária. Quando alguém sofre uma
fratura no fêmur, não a julgamos por ter de usar muletas, enquanto se recupera.
Há problemas que levam a pessoa a precisar de usar muletas pelo resto da vida,
e isso não é nenhum demérito para a pessoa; é uma necessidade.
Pois bem, o mesmo acontece com determinadas
patologias mentais. A diferença é que, quando temos uma patologia que afeta
nosso estômago e tomamos uma medicação para aliviar esse sofrimento ou curar a
doença, isto não é digno de nota ou estigma social como ocorre com uma doença
que afeta o cérebro ou a dinâmica da química cerebral.
Curiosamente, aqueles que defendem tratamentos
naturais, recomendam chás e ervas calmantes para pessoas com problemas ligados
à saúde mental, como ansiedade ou insônia, por exemplo, como se houvesse uma
aprovação tácita, quase moral, para o uso dessas substâncias nessas situações,
enquanto se demonizam as substâncias sintéticas.
Aliás, existem muitas ervas excelentes para acalmar
e aliviar a insônia. O mesmo já não se pode dizer sobre a Depressão. Existem
ervas, chás, dietas, práticas de meditação e até exercícios físicos que são
bons coadjuvantes para aliviar o problema, mas somente a psicoterapia aliada a
medicamentos são realmente eficazes.
Se substâncias naturais são indicadas para
sofrimentos psíquicos ou nos nervos, por que uma substância sintetizada é
estigmatizada? Diremos que é por conta dos efeitos colaterais indesejados. De
fato, eles existem mesmo. Mas, como já dissemos anteriormente, há situações em
que os efeitos colaterais indesejáveis são muito menos danosos do que a doença em
si e as consequências dessa doença na vida do indivíduo.
Alimentos
mais naturais, menos processados, sem dúvida redundam em mais saúde, mais
bem-estar e qualidade de vida, assim como terapias que não produzem efeitos
colaterais indesejados são muito boas. Mas não se podem esquecer os demais
fatores que interferem em nossa saúde e bem-estar.
Pouco
adianta ingerir alimentos que protejam nossa saúde se a nossa saúde mental é
totalmente afetada por um estilo de vida completamente “antinatural”, se, no
trabalho, nos é exigido o cumprimento de metas absurdas, se vivemos de uma
forma em que desrespeitamos os limites naturais do nosso corpo, se nossa forma
de viver nos adoece, em suma.
Viver
uma vida natural implicaria estar em harmonia com as leis da natureza, e não
somente preocupar-se com nossa alimentação ou medicamentos que ingerimos, mas
respeitar a necessidade de descanso tanto quanto a necessidade de trabalho, ter
bons hábitos de vida, como prática de exercícios e meditação, ter uma vida
social saudável, ter um ambiente de trabalho saudável, viver dentro de uma
sociedade sadia, ter bons relacionamentos afetivos.
É
ainda utópico falar de uma vida em uma sociedade sadia. Como não temos poder
para mudar, sozinhos, a sociedade, atemo-nos àquilo que podemos fazer
individualmente por nós. Então, voltamos nossas forças àquilo que é mais
passível de ser controlado, como aquilo que ingerimos, mas, enquanto isso, a
sociedade nos adoece, e nossa saúde mental é, muitas vezes, relegada ao segundo
plano.
Seria
ótimo se a alimentação natural e o uso de terapias consideradas naturais
resolvessem todos os nossos problemas de saúde, mas não é essa a realidade.
Podemos dizer que essa parte é apenas uma pequena fração daquilo que afeta
nossa saúde.
Do
ponto de vista social, temos uma multidão de situações que afetam
significativamente nossa saúde, sobre as quais temos pouca governabilidade como
indivíduos: a poluição do ar, dos rios e oceanos; os microplásticos que
ingerimos sem termos consciência, por conta dessa poluição; as relações
abusivas entre patrões e empregados, em que, muitas vezes, o trabalhador é
submetido a jornadas exaustivas e a prazos inexequíveis; o estresse causado
pelo trânsito, pela violência nas grandes cidades, pelo desemprego; a
mentalidade coletiva de seguirmos padrões estéticos antinaturais e
inalcançáveis; as exigências sociais por atingirmos modelos de perfeição no comportamento,
seja no trabalho ou nas relações com as demais pessoas; a ideia moderna, e
ilusória, de que o bom profissional é aquele que faz várias atividades ao mesmo
tempo e que está disponível até de madrugada; apenas para darmos alguns
exemplos.
Da
mesma forma, nossa saúde mental é pouco considerada para fins de nossa saúde
como um todo, a não ser quando a Ciência vem falar dos benefícios da ingestão
de substâncias com nomes difíceis, como o triptofano, presentes na banana ou em
amêndoas, e a niacina, que auxilia o funcionamento normal do sistema nervoso,
ou quando vem afirmar sobre o aumento dos níveis de oxitocina quando entramos
num ambiente natural, como uma linda cachoeira ou uma trilha arborizada. Coisas
desse tipo.
Ainda
tratamos a questão da saúde mental com um enfoque demasiado naquilo que
ingerimos ou em hábitos que são mais acessíveis ao nosso controle, como prática
de exercícios físicos, meditação e exercícios respiratórios. Não aprendemos a
lidar com nossas emoções. Não nos ensinaram isso nas escolas, porque, para
muitos, essas questões emocionais, psicológicas, devem ser ensinadas pela
família ou são da esfera da religião ou da espiritualidade.
O
problema é que há muitas famílias disfuncionais, que, em vez de ensinarem a
criança a lidar bem com suas emoções, sua autoestima, a terem bons
relacionamentos, acabam por serem o principal gerador das suas disfunções
psicológicas. Basta lembrarmos das violências domésticas, dos relacionamentos
abusivos, da rejeição e do abandono, da falta de carinho, de amor e da
negligência na educação.
E aí
se torna quase uma bobagem falar de triptofano ou ocitocina quando uma pessoa
vive uma verdadeira tragédia na sua vida psicológica, quando, por exemplo,
tenha sido vítima de abuso sexual ou vivido uma infância repleta de maus
tratos, abandono e negligência. É lógico que a alimentação ajuda, que recursos
como exercícios físicos e meditação ajudam. Dicas de autoajuda ajudam,
espiritualidade e boas amizades ajudam, mas a saúde mental é uma questão demasiadamente
complexa e individualizada para termos soluções simples, fáceis, genéricas e
universais.
Creio
eu que essa ênfase que damos ao alimento que ingerimos ou à medicação sintética
que evitamos, ou a esta ou aquela prática exterior, é mais um mecanismo de fuga
do ego, o mesmo mecanismo que faz com que uma pessoa sofra demais por excesso
de controle de tudo o que lhe é externo: o excesso de controle da agenda, o excesso
de rigor da alimentação, o excesso de rigor nos exercícios físicos. Tudo que é
excessivo é sinal de algum mecanismo de compensação, alguma disfunção
psicológica.
A
disciplina é importante em nossa vida, para chegarmos a algum lugar. Sem força
de vontade, metas e disciplina dificilmente alcançamos algum objetivo. Mas
quando o controle é excessivo, ele revela que há coisas dentro de nós, nossas
emoções, que são muito difíceis de controlar. Então, colocamos todo nosso foco
em controlarmos aquilo que nos é externo, porque é mais palpável, é mais fácil de
controlar e, portanto, confortador.
Para muitas pessoas, ter uma alimentação natural,
vai muito além da questão de saúde. Tem a ver com não sacrificar animais e não
os fazerem sofrer. De fato, esta opção de vida é nobre e revela uma ética
elevada e uma grande capacidade de desprendimento. Porém, ocorre também a
situação de pessoas que caem no engodo de se sentirem superiores às demais por
terem esse estilo de vida e de alimentação. Caem na armadilha de se sentirem
mais “puras”, porque se alimentam corretamente, enquanto não tratam a
humanidade com tanto respeito e amor como tratam os animais.
Ou seja, em muitas ocasiões, são pessoas que passam
por um mecanismo de fuga do ego, que lhes traz um conforto de estarem se
alimentando corretamente, porque aquilo que elas ingerem é mais fácil de
controlar do que as ansiedades e angústias que sofrem interiormente,
decorrentes de problemas relacionados com os seres humanos e consigo mesmo.
Quando o que entra pela boca se torna mais
importante do que o que sai da boca, temos aí uma inversão, pois passamos a dar
mais valor a procedimentos externos, em vez de valorizarmos aquilo que
cultuamos em nosso coração. Não foi sem razão que Jesus fez uma advertência aos
fariseus e ensinou aos seus discípulos que o que macula o homem não é o que
entra pela sua boca, mas o que sai, pois o que sai da boca é o que procede do
coração, e é do coração que partem os latrocínios, os assassinatos, os
adultérios (...) (Mateus 15:11), o mal, em suma.
Não se devem analisar essas palavras de forma
absoluta, tomadas ao pé da letra. Mas é importante pensar que, de algum modo,
algumas pessoas podem estar valorizando excessivamente aquilo que entra pela
boca, na forma de alimentação ou de medicamentos, como se fosse uma forma de
“pureza”, algo semelhante ao ritual de “lavar as mãos” que os fariseus
praticavam, o qual foi objeto da advertência de Jesus.
Usamos o termo “natural” para muitas coisas de
forma indevida, porque, de certa forma, a humanidade busca de volta um contato
com a natureza, que parece ter perdido. Por exemplo, é muito comum ouvir alguém
dizer que a Homeopatia é boa porque é “natural”. Essa terapia se utiliza de
substâncias da natureza para fazer seus medicamentos, mas elas são dinamizadas,
ou seja, diluídas de tal forma que, a depender da dinamização, podemos não
encontrar nem mais uma molécula sequer da substância original no medicamento.
Se fôssemos utilizar in natura as substâncias utilizadas para produzir medicamentos
homeopáticos, muitas delas poderiam nos matar. É o caso, por exemplo, do Arsenicum Album, que é um veneno
poderosíssimo, do Lachesis, que é o
veneno da cobra Surucucu, ou da Bryonia
Alba, que é uma erva tóxica para humanos e animais. O que torna essas
substâncias não tóxicas para o ser humano na Homeopatia é o processo de
dinamização (diluição), que é uma forma de tecnologia, um conhecimento aplicado
à natureza.
Curiosamente, os medicamentos que têm as
substâncias mais dinamizadas, ou seja, aquelas nas quais não há nenhuma
molécula da substância original é que produzem efeitos mais profundos no
aspecto mental do paciente e na saúde como um todo. De algum modo, a água retém
a “memória” da substância, para produzir no paciente enfermo a cura pelo
semelhante. De qualquer forma, há que se ter muito conhecimento sobre o
assunto, pois a Homeopatia utilizada sem conhecimento pode gerar catarse e efeitos
indesejados.
Existem muitas terapias denominadas integrativas que
se utilizam de processos ainda pouco compreendidos pela Medicina convencional,
o que não significa que sejam inócuas ou que não possam trazer problema para o
paciente. Qualquer técnica ou terapia, se for mal aplicada, se for utilizada
sem conhecimento, sem formação profissional, pode gerar problemas.
Mas o que ressalta dessa busca recente da
humanidade pelo que é “natural” é que nossa sociedade moderna, urbanizada,
foi-se afastando gradativamente da natureza e, de algum modo, o ser humano se
ressente disso. Após a Revolução Científica e a Revolução Industrial, e com o
mundo cada vez mais urbano e menos rural, passamos a ter uma percepção distorcida
de que a natureza é algo à parte, separada de nós.
É muito comum, por exemplo, ouvir pessoas dizerem
que irão viajar ou passar férias para poderem “estar em mais contato com a
natureza”, porque, nas grandes cidades, a sensação é de que estamos num mundo
dominado por monóxido de carbono, poluição sonora, poluição visual, poluição
das águas, a sensação de estarmos envolvidos num mundo artificial, criado pelo
homem, que, de modo geral, estressa, deprime, adoece.
Houve um tempo em que a natureza precisava ser
dobrada, manipulada, sujeitada às necessidades humanas, não importando muito o
subproduto que os seres humanos devolviam à natureza. Houve um tempo em que
parecia que os recursos naturais eram infinitos, prontos para atender a todas
as demandas dos seres humanos. Percebemos que isto não é verdade; percebemos
que os recursos naturais se esgotam e que o lixo que produzimos no manejo com a
natureza volta para nós.
No apogeu da mentalidade industrial, os rótulos de
produtos alimentícios contendo uma lista sem fim de vitaminas e minerais
adicionados artificialmente seduzia o imaginário das pessoas, a tal ponto que
muitos consideravam esses alimentos mais saudáveis do que a fruta colhida no
pé, do que as hortaliças e os legumes produzidos na horta.
Quando o homem pisou pela primeira vez na Lua, o
sucesso da tecnologia era de tal modo que se acreditava, pelo menos por um
tempo, que o ser humano seria capaz de produzir pílulas para alimentação,
contendo todos os nutrientes necessários, todas as vitaminas, os sais minerais,
para que um astronauta pudesse se alimentar em suas longas jornadas pelo
espaço. É claro que isso não aconteceu, pelo menos ainda não.
Durante muito tempo, fomos bombardeados pelas
propagandas dos produtos industrializados, sempre sedutoras, mas, aos poucos,
fomos nos dando conta do mal que fazem à nossa saúde os refrigerantes, as
carnes processadas – salsichas, presuntos, linguiças –, os produtos açucarados,
os sorvetes, os salgadinhos, a margarina, as gorduras trans entre tantos outros
alimentos. Mesmo assim, é muito difícil mudar nossa alimentação, pois esses
produtos são muito saborosos e de fácil preparo para consumo.
Perdemos contato com o processo de produção dos
alimentos. Muitas crianças não sabem que o leite de caixinha vem da vaca. E
muitos adultos desconhecem os processos que fazem com que o leite extraído da
vaca hoje possa ter validade de quatro meses. É algo para, no mínimo, desconfiar.
Desaprendemos a colocar o pé em contato direto com
o chão, a tomar banho de rio, a ter contato real e efetivo com as energias da
natureza. Se, antigamente, este seria um discurso místico, hoje já existem
pesquisas que indicam a liberação da famosa ocitocina, hormônio do prazer e do
amor, quando uma pessoa entra em contato com uma floresta, uma cachoeira ou um
lugar natural bonito e acolhedor.
Vivemos uma vida mais acostumados aos shoppings, aos
ambientes fechados de luz artificial, e nos distanciamos de hábitos simples e
sadios, como comer um mamão recém colhido do mamoeiro, uma manga diretamente da
mangueira, ou de comer um legume colhido na horta.
Nossos ambientes não naturais são tão desinfetados,
mas ao não entrarmos em contato com a terra, criamos menos anticorpos para nos
protegerem de doenças. Essa cultura que nos levou a evitar contaminações e a
viver em grandes centros urbanos nos afastou da natureza, como se fôssemos
seres apartados dela, estranhos a ela.
Cada vez mais encontramos pais superprotetores, que
acreditam estar criando seus filhos em ambientes totalmente assépticos, longe
da terra ou da areia dos parquinhos, em ambientes mais controlados como o dos
condomínios fechados ou shoppings, mas isso tem por resultado criar filhos com
menos saúde mental, porque há uma parcela da saúde que só a natureza pode nos
dar. Isto sem contar que a maior aglomeração de crianças em ambientes fechados
é mais propícia para propagar viroses e bactérias.
Não há dúvidas de que o avanço das indústrias e da
Ciência impulsionou o avanço civilizatório e permitiu que o homem dominasse e
manipulasse a natureza como nunca antes na história, mas, de forma
contraditória, causou um impacto tão grande nesse mundo natural que modificou
sua essência, tornando nossa casa, o planeta Terra, um mundo cada vez menos
habitável.
O progresso da Ciência também gerou alguns efeitos
colaterais, como o de suprimir ou relegar à margem da sociedade os
conhecimentos tradicionais a respeito do uso de plantas e técnicas que nos
ajudam a restaurar a saúde.
À medida que esse progresso científico, tecnológico
e industrial foi expondo uma grave ferida interna da nossa sociedade, que se
expressa na forma de lixo, derramamento de petróleo nos mares, despejamento de
gases na atmosfera que causam o aquecimento global, houve, também, um certo
desencanto com as maravilhas desse progresso, o que, em certa medida, gerou um
movimento de busca por um estilo de vida mais em harmonia com as leis da
natureza, assim como a busca por uma alimentação e tratamentos considerados mais
“naturais”.
Enfim, a busca pela natureza tem uma razão de ser.
Ela revela um anseio por uma sociedade menos neurótica, uma sociedade que lide
com a natureza de forma sábia, que viva um estilo de vida que seja mais saudável,
e que não seja a causa da destruição do próprio habitat e, por conseguinte, da
autodestruição.
O clamor pelo que é considerado “natural” não é só
uma questão de buscarmos uma alimentação mais equilibrada ou tratamentos menos
agressivos à saúde. É um desejo íntimo, inconsciente ou consciente, de vivermos
mais integrados à natureza da qual nos afastamos, ao lar que nos acolhe,
compreendendo que, por mais que avancemos em Ciência e tecnologia, nunca
seremos seres apartados do mundo que nos rodeia e do qual somos dependentes.