quinta-feira, 15 de abril de 2021

Esquerda e Direita

Artigo de: Alexandre Paredes 









A utilização dos termos esquerda e direita em política teve início após a Revolução Francesa. No parlamento, sentavam-se à direita aqueles que defendiam a manutenção dos privilégios dos aristocratas (nobres e donos de terras) e do clero (membros da Igreja Católica), enquanto à esquerda sentavam-se aqueles que defendiam os interesses da burguesia, que era a classe que sustentava os privilégios das classes favorecidas, ou seja, pagavam a conta.

Por razões óbvias, aqueles que detinham os maiores privilégios da sociedade lutavam por conservá-los, enquanto as demais classes lutavam por mudanças. O clero, como era uma classe privilegiada, evocava a ideia do direito divino ou da vontade de Deus para que as classes permanecessem como estavam.

A burguesia era uma classe recente na história da civilização. Surgiu do comércio num mundo que era, na Idade Média, governado pelos donos de terras, os aristocratas. Só posteriormente, a burguesia tornou-se sinônimo de classe privilegiada, quando o capital tornou-se o valor maior da sociedade. Mas, até a Revolução Francesa, ainda era uma classe em ascensão.

Nunca haverá paz e justiça social enquanto houver privilégios e privilegiados, que legislam para si mesmos, para a manutenção de seus benefícios injustificados. Também não é possível ter uma sociedade justa se houver ascensão social sem esforço, sem trabalho, ou quando se veem como inimigos aqueles que geram empregos e pagam salários.

Mas também é uma ilusão imaginar que, no sistema Capitalista puro e simples, sem as proteções e iniciativas do Estado, possa haver emprego digno para todos ou oportunidades minimamente semelhantes para todos. Esse sistema, por estar calcado numa competição desigual, em que uns nascem com oportunidades que lhes dão grandes vantagens sobre os demais, e outros que vivem sem acesso a uma educação de qualidade, em um ambiente social hostil e desfavorável, produz, cada vez mais, pessoas à margem da sociedade.

Isto aumenta, gradativamente, as desigualdades sociais, na medida em que os mais bem dotados de condições sociais, culturais e econômicas de nascimento tendem a ampliar sua vantagem sobre os demais membros da sociedade. E numa sociedade em que os ricos tendem a ficar mais ricos, e os pobres, cada vez mais pobres, é de se esperar que haja conflitos sociais e violência.

Outra ilusão é crer que se possa estabelecer a igualdade por meio da força, por meio de sistemas ou decretos. Primeiro, porque leis e sistemas são incapazes de mudar o interior do ser humano, suas ambições, a inveja, a cobiça, o desejo de ser mais e de se sobressair sobre as demais pessoas. Leis são impotentes para inibir ódios ou para tornar o ser humano mais amoroso ou gentil. Depois, porque os seres humanos são desiguais por natureza, desiguais no modo de encarar a vida, nas aptidões, nas competências, nos desejos e nos valores que abraçam como os mais importantes para uma vida significativa ou feliz.

A associação da esquerda ao Socialismo e ao Comunismo veio somente no Século XIX, com as ideias de Karl Marx e Friedrich Engels. Sem querer entrar no mérito das ideias desses pensadores, a que queremos ressaltar é a da “ditadura do proletariado”, que seria uma consequência natural, segundo eles, da ascensão do proletariado ao poder em virtude da evolução da luta de classes. Na época desses pensadores, o proletariado é que estaria à esquerda, enquanto a burguesia, que era a classe que detinha o poder do capital, estaria à direita.

Essa premissa da “ditadura do proletariado” é ingenuamente falsa, porque aquele que antes foi de uma classe menos favorecida, ao ascender ao poder, torna-se um detentor de privilégios, de condições materiais e de vida mais favoráveis. Desse modo, à exceção dos homens virtuosos e desprendidos do poder e de riquezas, ele logo se esquece de sua situação anterior e dos seus companheiros menos afortunados para desfrutar das benesses que o poder permite, ou seja, deixa de ser do proletariado.

É por essa razão que os homens que chegam ao poder, independentemente de ideologias, de esquerda ou de direita, partidos políticos a que estão filiados, podem ser corrompidos ou podem tornar-se indiferentes à população para cuidar dos seus interesses pessoais, situação que se agrava quando se suprime a liberdade em nome da igualdade.

Então, não importa se aquele que ascendeu ao poder é um monarca, um proletário ou um empreendedor; não importa se veio de família pobre ou de família rica; se defende ideias de esquerda ou de direita: Todo ser humano está sujeito a esquecer tudo o que foi e tudo o que defende para atuar em benefício de seus interesses próprios. “Queres conhecer uma pessoa; dá-lhe o poder”, diz o ditado.

Assim, associar a corrupção à esquerda ou à direita é uma ideia ingênua ou apaixonada, destituída de racionalidade, quando não de má-fé, porque não são as ideologias, nem partidos que são corrompidos ou que corrompem; são os seres humanos. E geralmente são corrompidos ou corrompem aqueles que se encontram no poder, independentemente da sigla a que estão afiliados.

O mesmo se pode dizer com relação à ditadura, que tem ou teve representantes tanto na esquerda quanto na direita, porque o autoritarismo é uma condição humana, de líderes com mentalidade autoritária e de liderados que buscam no líder um messias, um salvador da pátria, em vez de serem protagonistas na melhoria da sociedade em que estão inseridos.

É um erro comum associar a esquerda à ditadura. Se é certo que os pensadores do Comunismo e do Socialismo teorizaram a “ditadura do proletariado”, fica claro que essa visão política de mundo polarizada entre esquerda e direita veio anteriormente às ideias de Marx e Engels.

Então, a esquerda, em linhas gerais, apenas defende os interesses das classes menos favorecidas, o fim de privilégios injustificados das classes mais favorecidas e mudanças progressivas na sociedade, sendo o Comunismo apenas uma vertente dos pensadores de esquerda. Ou seja, o Comunismo e o Socialismo surgiram das ideias de pensadores de esquerda, mas a esquerda não se resume a esses regimes.

Muitas pessoas trazem em si uma visão maniqueísta do mundo e da sociedade: a de que o bem está de um lado e o mal de outro; a de que o bem somos nós e o mal são os outros, ou aqueles que pensam diferente de mim; a de que o bem está na direita e o mal está na esquerda ou vice-versa. O bem e o mal, a verdade e o erro, a honestidade e a hipocrisia, a virtude e o vício estão espalhados em todas as nações e visitam, de forma indiferente, todas as classes sociais, todas as ideologias, todos os sistemas, todos os seres humanos, todos os partidos, todos os políticos.

Essa visão de mundo, dividida entre esquerda e direita é, e sempre será, estreita, tacanha, por razões muito simples. Primeiro, porque essa visão de partido é partida, fragmentada, e toda forma de ver que se foca somente numa parte, deixa de considerar o todo. Depois, porque ela parte do princípio de que existe e sempre haverá uma permanente luta de classes e que, ao invés de solucioná-la, fomenta-a, polarizando a sociedade.

Trata-se de uma visão reducionista da realidade, porque reduz nossa percepção de mundo e nossa opinião sobre vários temas intrincados da nossa vida em sociedade, como liberdade, direitos humanos, casamento homoafetivo, aborto, porte de armas, desenvolvimento sócio-econômico, costumes e regras sociais, propriedade privada, entre outros, à pauta de uma infindável luta de classes, que se antagonizam perpetuamente.

É como se colocássemos toda a complexidade da vida e das questões debatidas dentro de uma perspectiva de um cabo de guerra, em que cada um de nós pudesse escolher apenas um lado, e a partir do momento em que escolhêssemos um dos lados, tivéssemos que aderir por tabela a todas as pautas defendidas pelo lado escolhido. Após essa escolha realizada, passamos a fazer força para puxar a corda para um lado ou para outro, como se nossas escolhas como sociedade, como humanidade, pudessem ser resumidas a ser a favor ou contra alguma coisa.

A partir do momento em que as pessoas escolhem o lado com o qual mais se afinizam, as ideias com as quais mais se identificam, geralmente passam a ter uma relação afetiva com aqueles políticos, partidos ou nações que o representam. Essa relação acontece, não muito raramente, de forma apaixonada, de forma semelhante ao que ocorre com uma torcida de um time de futebol.

         Nada mais irracional do que a discussão entre torcedores de times de futebol rivais, que sempre interpretam algum lance irregular do jogo sob a ótica da paixão, sob a ótica da defesa do meu time em detrimento do outro, tornando-me cego perante os méritos do outro time ou perante a justiça do árbitro.

 Como toda paixão é cega, o que se observa, frequentemente, é uma cegueira seletiva: Só enxergamos o mal, a corrupção, a incompetência, o erro, no “time” adversário, e ficamos cegos perante essas mesmas circunstâncias quando se trata do “time” que elegemos para torcermos.

 Algo semelhante ocorre no julgamento de um crime na sociedade em que vivemos. Os advogados de uma parte ou outra, na maioria das vezes, não contribuem para a vitória da verdade e da justiça, mas lutam para a vitória sobre a outra parte, usando, não raro, de artifícios escusos e de mentiras diante do tribunal.

 Essa forma apaixonada e interesseira de ver o mundo distorce a verdade, o que resulta numa guerra de discursos e de narrativas sobre os fatos. Para que possamos enxergar a verdade e julgar com discernimento, seria necessário colocarmo-nos na condição do juiz, na metáfora do julgamento no tribunal, e não do advogado de uma parte ou de outra.

 Há um grande abismo entre discursos e práticas, tanto na esquerda quanto na direita, o que gera grande confusão na mente das pessoas. No caso da direita, não é incomum, por exemplo, observar países que adotam o discurso do liberalismo econômico como melhor alternativa para a economia, porém adotam medidas protecionistas em relação aos seus próprios mercados. No caso da esquerda, não é raro, por exemplo, observarmos a luta de determinadas classes pelo fim de privilégios das classes mais favorecidas, enquanto defendem a manutenção dos próprios privilégios.

 Em nosso tempo, observarmos a direita levantar a bandeira, por exemplo, da defesa dos costumes tradicionais, do Cristianismo, da pena de morte e do porte de armas. Mas por que razões o ser humano, no decorrer de sua história pôde associar a pena de morte e o porte de armas generalizado ao Cristianismo, se Jesus pregava o perdão incondicional e sem limites, o amor até mesmo aos inimigos? se foi o próprio Cristo que, no alto da cruz, disse, em relação aos seus algozes “Pai, perdoai-os, pois eles não sabem o que fazem”? e se foi, também, Jesus, no momento em que seria preso, que disse a Simão Pedro “Põe tua espada na bainha, pois quem com ferro fere, com ferro será ferido”? Não há coerência em associar Jesus a essas bandeiras.

 Por outro lado, a esquerda tem por pilar maior a defesa da igualdade de condições entre os cidadãos. Em seus discursos, geralmente observamos a defesa dos direitos dos excluídos, das minorias oprimidas, dos trabalhadores, dos mais pobres. Porém, não raro, veem-se líderes de esquerda que se deixam levar pela corrupção ou pelo luxo, e passam a defender seus próprios interesses, enquanto mantêm sua retórica em defesa dos menos favorecidos. É, no mínimo, incoerente e hipócrita.

 O que dizer também, por exemplo, da defesa do aborto provocado e industrial, como se fosse uma ideia progressista, já que se trata de um assassinato (exceto quando em caso de risco de morte da mãe) a uma minoria oprimida e sem voz, que são os fetos nos ventres das mães? Embora a esquerda esteja alinhada a um discurso auto-intitulado de “progressista”, não há como se esperar progresso por meios como este, mas apenas a decadência de uma sociedade.

 O termo “conservador” é utilizado para designar aquelas pessoas com princípios de moralidade rígidos, geralmente baseados em dogmas religiosos ou de doutrinas, ou a pessoas que não são muito favoráveis a mudanças na sociedade e nos costumes, enquanto o termo “progressista” é geralmente utilizado para as pessoas que buscam e querem mudanças na sociedade e nos costumes. Ocorre, porém, que nem todas as mudanças são para melhor, ou seja, mudança nem sempre é sinônimo de progresso. Um assassinato, por exemplo, será sempre um crime, seja hoje ou daqui a alguns séculos, ainda que chancelado por uma sociedade inteira, e nunca será precursor do progresso.

 Não há como um assassinato ser realizado em boas condições, e isto vale tanto para a pena de morte, geralmente defendida pela direita, quanto para o aborto provocado ou o suicídio assistido, geralmente defendidos pela esquerda. Os nazistas se felicitavam por terem encontrado uma forma “asséptica” e pretensamente indolor de exterminar pessoas indesejadas, como foi o caso das câmaras de gás. Mas isto não tornou o crime menos criminoso. Pelo contrário, a frieza e a racionalidade com que se cometiam assassinatos contra judeus, ciganos, homossexuais, deficientes e outras minorias tornaram tais crimes ainda mais cruéis e hediondos, porque foram realizados por uma sociedade civilizada e avançada intelectualmente.

Vivemos numa incessante batalha de discursos, de teorias, de retóricas, em que a esquerda geralmente refugia-se num futuro utópico, enquanto a direita busca o retorno a um passado idealizado e que nunca existiu de fato. Basta um breve olhar para a história da humanidade para percebermos que a ideia de que houve um tempo em que tudo era melhor, e em que, pretensamente, havia um maior senso moral não se sustenta.

 Na batalha de narrativas em que nos encontramos mergulhados, é comum associar as ideologias que abraçamos como melhores ou mais verdadeiras aos exemplos dos países bem-sucedidos que adotam ou adotaram ao longo de sua história tais ideologias. Esquecemo-nos, porém, de que muitos dos países que usamos como modelos de sucesso conquistaram sua condição de liderança econômica, militar e/ou política a partir do espólio dos países vencidos, vitimados por injustiças e pela tirania dos países mais poderosos.

 Poderíamos, por exemplo, usar o antigo Império Romano como modelo de sucesso civilizatório, dada a forma com que se organizava sua sociedade, porém não se pode esquecer a avassaladora escravização de seres humanos da época e o massacre de vários povos denominados bárbaros, vencidos, escravizados, espoliados. O mesmo raciocínio poderia ser aplicado à realidade atual: Não existe modelo de sociedade bem-sucedida enquanto ela estiver baseada na subjugação de outros povos, ou na opressão de seu próprio povo ou de suas minorias.

 Sobre essa incessante busca da humanidade por soluções políticas para seus males, ora pendendo para a esquerda, ora para a direita, gosto de utilizar uma figura para ilustração. Imagine um edifício que está sendo tomado por um incêndio de grandes proporções. Os ocupantes do prédio dos andares superiores ao local do fogo fogem para o terraço e correm para a esquerda e para a direita, sucessivamente, sem acharem uma saída para o dilema, pois o fogo, que se aproxima cada vez mais, vem de baixo e o calor se intensifica a cada minuto. A única saída possível seria por cima, num resgate de helicóptero.

 Essa é a metáfora do que parece ser essa busca da humanidade por uma saída de suas mazelas, como a fome, a guerra, as desigualdades sociais, a violência urbana, o abandono, a destruição dos recursos naturais, o desemprego e a falta de saneamento básico. Talvez seja necessário transcender a esses conceitos tão enraizados de direita, esquerda e centro, para buscarmos soluções que estejam além de sistemas e teorias que nos têm levado aos mesmos lugares que já conhecemos.

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